Como surgem as gírias

Quase todo dia você esbarra em gírias novas. Elas se propagam com uma velocidade incrível. Eletrizam tudo o que é conversa. E todos ficam ligados nesse novo jeito de falar. Palavras cansadas, jogadas para escanteio, ressurgem como um furacão.

Verbos antigos aparecem disfarçados no cardápio das gírias “da hora”: viajar é  “viajar na maionese”; delirar vira “delirar na goiabada” e pirar se torna “pirar na batatinha”. Até  “chutar o pau da barraca” não é mais o mesmo.

Linguagem cifrada de grupos restritos

Explicar a palavra gíria já é a maior “mão-de-obra”. Ela é sinônimo de geringonça, que se origina do espanhol jerigonza, ou ainda, jerga. Etimologistas acreditam que, por onomatopéia, jerga tenha nascido do verbo latino garrire, ou seja, tagarelar. Mas Deonísio da Silva, professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Carlos, lembra outra hipótese: a origem remota estaria no vocábulo grego hierós, que define o que é sagrado, oculto. E destaca a sua característica de linguagem cifrada, compreendida apenas pelos que pertencem à mesma tribo.

Pois toda gíria que se preze vem direto de grupos restritos – dos presos, malandros, surfistas, estudantes e assim por diante. Repara só no que rola dentro de uma prisão. Atrás das grades, os presos não estão assim tão isolados. Eles cruzam muita gente, do carcereiro ao advogado, do médico ao jornalista. A bandidagem bola expressões que ficam de molho, servem de código exclusivo. Até que vem alguém de fora, capta o espírito da coisa e sai dedurando a nova gíria (veja o infográfico ao lado). A prosa alcança os meios de comunicação, que botam a boca no trombone. Depois, a novidade vira conversa de comadre. Então, das três uma: ou a gíria é assimilada pela língua oficial e acaba no dicionário; ou vira lero-lero de poucos, ou todo mundo desencana e esquece. Conclusão: o pessoal que está em cana tem de criar outra conversa para disfarçar. E a ladainha começa de novo.

As Gírias do Futebol

O mito do animal (Na época em que jogava no Corinthians) 

Todo mundo sabe que o Edmundo, do Corinthians, atende por “animal”. Foi o locutor Osmar Santos o primeiro a chamá-lo desse modo, um apelido que contagiou a imprensa e a galera de tal maneira que, agora, de nada adianta o craque do Parque São Jorge fingir que não é com ele. Roupa de anjo não serve para o Edmundo. Mas esse emprego da palavra animal não é invenção brasileira. Na Alemanha, animal, ou seja, tier, e uma expressão há muito empregada para retratar a vitalidade de um atleta em qualquer esporte”, informa Flávio Di Giorgi, professor de Teoria da Comuncação da Pontifída Universidade Católica de São Paulo. Ele lembra ainda que “animal” deriva do latim anima, que se refere à alma, à garra, e também de animales, o ser de instinto muito forte. Talvez agora o Edmundo fique satisfeito com a sua alcunha

Exemplos de gírias no futebol

1- Maria Chuteira: mulher que só namora jogador de futebol

2- Ir para o chuveiro: ser expulso do jogo

3- Onde a coruja faz o ninho: canto superior da trave onde a bola entra de modo indefensável

4- Ta no filó: gol, bola na rede

5- Carregador de piano:  jogador que não aparece na mídia mas é essencial para o esquema tático do time.

Mídia

Os meios de comunicação de massa, em especial a televisão e o rádio, são também inventores. Mas o seu principal papel é o de propagar os novos vocábulos por toda a sociedade.

As expressões que a mídia cria está na boca do povo e acaba virando moda e acaba pegando.

Por acaso, você nunca esteve num vuco-vuco?

Nunca ficou chique de doer?

Nunca chamou sua melhor amiga de poia?

Já ouviu Mamonas Assassinas?: “Mina, seus cabelos é da hora…”

O Rappa cantando a música Rodo Cotidiano:

“…Numa mochila amassada, uma quentinha abafada…”

“…sou mais um no Brasil da central na minhoca de metal que corta as ruas…”

 

Pegamos o filme como exemplo, mas existem outros exemplos que também podem ser citados: novelas, seriados, comercias, músicas, entre outros.

Expressões e gírias tiradas dos filmes: Tropa de Elite e A Cidade de Deus:

1-     Aspira: inexperiente

2-     Zero Um: primeiro a desistir

3-     Fanfarrão: aquele que comete um deslize ou diz uma besteira

4-     Meu coração te escolheu: estou apaixonado por você

5-     Meu nome agora é Zé Pequeno: expressão de auto-afirmação

Gírias de Malandros

Das ruas e dos morros, as expressões são divulgadas pelos usuários de droga,traficantes, moradores de favela etc.

Trecho da música do Mc X e Cássia Eller (Acústico MTV)

“…  não curto isso aí, mas to ligado na parada que domina por aqui, fumando um baseado, curtindo de leve, no pagode lá na área to esperto, no movimento que se segue, segue e vai. Eu vou levando eu vou curtindo até não dar mais. Tudo prossegue normal até onde eu sei, enquanto isso é melhor cerveja que vem, leva essa traz mais uma põe na conta, to sem dinheiro ta valendo to à pampa..”

1-     A pampa: Estar satisfeito

2-     Atrás da muralha: estar preso

3-     Fazer uma fita: assaltar

4-     Passar um pano: acobertar alguém

Gírias de todas as tribos

São aquelas gírias que todos falam ou conhecem e que fazem parte do nosso cotidiano:

1-     A preço de banana: muito barato

2-     Busão: ônibus

3-     Canhão, dragão: mulher feia

4-     Comer pelas beiradas: chegar de mansinho

 Procuramos por algumas gírias antigas e suas origens, provavelmente, essas são da época que nossos pais eram jovens. Pergunte para eles o significado, temos certeza que eles saberão as respostas:

Bafafá: confusão. Tem origem na palavra árabe bafaf, que quer dizer bolo.

Pindaíba: sem dinheiro. De origem tupi, “pinda” significa anzol e “aiba”, ruim.

 Xilindró: prisão. Em língua banto, era como os escravos brasileiros chamavam seu esconderijo no mato.

 Patavina: nada. Na Idade Média, o aluno ridicularizava o ensino de latim, citando o autor Titus Livius Patavinus.

 Arco da velha: muito antigo. Expressão do Evangelho, simbolizando a paz, a aliança entre Deus e o homem.

 Araque: sem valor. Bebida árabe; por isso, a conversa vira de “araque” quando se bebe muito e não se sabe o que se diz.

O Juridiquês

*jargão- gírias usadas por profissionais de uma mesma área

Nos últimos tempos, assistimos a debates em torno das propostas de proibição do uso de “estrangeirismo”, a críticas ao “gerundismo”, e mais recentemente as atenções se voltaram para a linguagem usada pelos profissionais de Direito. Recomendou-se aos profissionais da área, por exemplo, evitar a ordem indireta  na construção de enunciados, bem como emprego de palavras arcaicas ou em desuso. Essa polêmica merece algumas considerações. Primeiro, a adequação da terminologia jurídica não deve ser avaliada em si mesma, ou seja, esta depende da situação concreta de comunicação: o que está sendo dito e para quem está sendo dito.

Imagine um advogado dizendo a outro: “a sentença transitou em julgado”. Como os dois são da mesma área nenhum problema. Falando a um leigo, seria mais adequado dizer que a decisão do juiz não pode mais ser contestada, é definitiva.

Observe que é comum o emprego de termos técnicos com o uso de palavras arcaicas. Imagine agora um advogado dizendo a outro, a respeito de um cliente: “o réu vive de espórtula tanto que é notória sua cacosmia”. Seria muito mais fácil compreender a mensagem se, em lugar de “espórtula” o advogado dissesse que o réu dependia de donativos; e, em vez de “cacosmia”, afirmasse que vivia em ambiente miserável.

Alguns exemplos:

1-     Cártula chéquica: folha de cheque

2-     Alvazir: juiz de primeira instância

3-     Ergástulo público: cadeia, presídio

 Curiosidades

Nós conhecemos apenas o homicídio, veja agora alguns nomes curiosos que são usados para discriminar o assassinato de uma pessoa, por seu grau de parentesco.

Nomes do crime:

Sororicídio: morte de irmã

 

Mariticídio: morte de marido

 

Uxoricídio: morte de ex-esposa

Patruicídio: morte de tio paterno

 

Vá indo que eu já vou…

O jeito brasileiro de expressar o tabu da morte

 •Abotoou o paletó de madeira: fechou-se o caixão

•Bateu o cachimbo: os vícios morreram

•Morte de mau-sucesso: morrer no parto

•Está na terra dos pés juntos: alusão ao hábito de atarem os pés do defunto com um lenço, para impedir que na rigidez cadavérica, se conservem as pontas dos pés viradas para fora.

•Bateu a bola: “bola” é cabeça, crânio.

•Esticou os cambitos: cambito é perna fina e também uma espécie de forquilha da canga com que se prendem os animais de um carro de boi.

•Lascou-se: desfez-se

 

Gírias

A  gíria é um fenômeno de linguagem especial usada por certos grupos sociais pertencentes a uma classe ou a uma profissão em que se usa uma palavra não convencional para designar outras palavras formais da língua com intuito de fazer segredo, humor ou distinguir o grupo dos demais criando um jargão próprio.

É empregada por jovens e adultos de diferentes classes sociais, e observa-se que seu uso cresce entre os meios de comunicação de massa. Trata-se de um fenômeno sociolingüístico cujo estudo pode ser feito sob duas perspectivas: gíria de grupo e gíria comum.

Gíria de grupo

A gíria de grupo é usada por grupos sociais fechados e restritos, que têm comportamento diferenciado. Possui caráter criptográfico, ou seja, é uma linguagem codificada de tal forma que não seja entendida por quem não pertence ao grupo. O uso de termos, gírias dá aos falantes um sentimento de superioridade, serve como signo de grupo, contribuindo para o processo de auto-afirmação do indivíduo. Expressa a oposição aos valores tradicionais da sociedade e preserva a segurança do grupo, pois em determinadas situações a comunicação é nula com aqueles que não pertencem a ele. Quando o significado das gírias sai do âmbito do grupo, novos termos são criados para que se mantenha seu caráter criptográfico. Por isso trata-se de algo efêmero, em constante renovação.

Os termos são criados quase sempre a partir do vocabulário comum, com alteração do significante, mudança de categorias gramaticais e criação de metáforas e metonímias que expressam a visão de mundo do grupo, refletindo ironia, agressividade ou humor. Seu processo de criação baseia-se no espírito lúdico, tornando-se um jogo de adivinhação para quem é estranho ao grupo. Embora seu estudo interesse mais aos sociólogos e historiadores da linguagem, que utilizam o fenômeno para pesquisas sobre grupos sociais, a gíria de grupo foi objeto de estudo de alguns lingüistas do século XX.

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