Gíria comum

Quando o uso da gíria de grupo expande-se, passa a fazer parte do léxico popular e torna-se uma gíria comum. É usada para aproximar os interlocutores, passar uma imagem de modernidade, quebrar a formalidade, possibilitar a identificação com hábitos e falantes jovens e expressar agressividade e injúria atenuada. Torna-se um importante recurso da comunicação devido a sua expressividade. A gíria comum é usada na linguagem falada por todas as camadas sociais e faixas etárias, por isso deixa de estar ligada à falta de escolaridade, à ignorância, à falta de leitura. Na linguagem escrita é usada pela imprensa e por escritores contemporâneos, e muitos termos são dicionarizados.

Expansão do uso da gíria

Os movimentos político-sociais para democratização da sociedade refletiram-se também nos hábitos e na linguagem; a isto se deve o aumento do uso da gíria. A mudança da sociedade brasileira de predominantemente rural para urbana ampliou o uso da linguagem e dos costumes urbanos por todo o país. O mundo atual é instável, em constante e rápida transformação, e a gíria serve tambem para expressar revolta e frustração com injustiças sociais, para romper com os valores tradicionais. Neste panorama, cabe à escola não só preservar o ensino tradicional, mas também ensinar as variações lingüísticas e a adequação do uso de cada uma delas, dependendo do papel social que o falante representa em cada situação.

A gíria nos meios de comunicação

Os meios de comunicação de massa têm influência cada vez maior sobre os fenômenos da linguagem. Ao utilizarem as gírias em seus programas e reportagens, contribuem para a difusão destes termos por todas as camadas sociais. A cultura de massa precisa uniformizar a produção, então busca elaborar seus programas e textos de forma a atingir um receptor padrão que pode ser culto ou inculto. Surge a norma lingüística da mídia, que mistura hábitos orais e escritos numa linguagem compreensível por todos. Embora seja encontrada também nos jornais de maior prestígio, a gíria é amplamente usada pelo jornalismo popular. Estes termos são usados pela imprensa para aproximar o texto da linguagem oral, buscando a quebra da formalidade e a aproximação com o leitor. Alguns termos têm seu uso tão difundido que o leitor nem percebe que é uma gíria.

Gírias cariocas

Gás= muito rápido

É fria= perigoso

Brother= alguém

Trampar= trabalhar

Gambé/coxinha= policial

Larica= fome

Latão= ônibus

Camelo=bicicleta

Ir nas primas= ir ao puteiro

Gírias de Alagoas

Arenga= briga pequena
Biliro= grampo de cabelo
Dar uma carreira= correr atrás de alguém
Emburaca= entrar sem licença
Fulero= quem não cumpre o prometido
Fuxico= fofoca
Iapôis= interj É mesmo!
Inhaca= catinga de suor
Invocado= está com raiva
Liga= borracha de dinheiro.

Gírias do Ceará

Abestado= otário

Acunhar= chegar junto

Avexado= apressado

Cagado= sortudo

Chapa= radiografia/ dentadura

Mangar= ridicularizar

Marmota= coisa estranha

Papeira= cachumba

Pelejar= tentar exaustivamente

Varapau= homem grande

Gírias do mineiro

Pelejano= tentando

Trem= substitui a palavra coisa

Bololô= confusão

Breguete= coisa, objeto

Consolo= chupeta

Vamo piá= vamos entrar

Tem base= tem fundamento

Riliento= briguento

Uai sô= uai é uai! Uai!

Gírias baianas

Se é miúdo é pixototinho
Se é pequeno é cotôco
Se é alto é galalau
Se é franzino é xôxo
Tudo que é bom é massa
Tudo que é ruim é peba
Rir dos outros é mangar
O bobo se chama leso
E o medroso chama frouxo
Tá torto é tronxo
Se vai sair diz vou chegando
Dar a volta é arrodeio
Dinheiro é mufunfa

Pernilongo é muriçoca
Chicote se chama peia
Se tá folgado tá folóte
Quem tem sorte é cagado
Sujeira de olho é remela
Gente insistente é pegajosa
Agonia é aperreio
Meleca se chama catota
Gases se chamam bufa
Catinga de suor é inhaca
Palhaçada é munganga
Desarrumado é malamanhado

Bezerra da Silva

A trajetória artística de Bezerra da Silva está associada à gíria, não específicamente da malandragem e do Rio de Janeiro, mas de amplos segmentos sociais que têm os mesmos traços sociais e culturais, em qualquer cidade brasileira, como ressalta com grande visão de futuro e compreensão crítica, no asfalto e no morro.
No asfalto, estão supostamente as elites e no morro, que significa favelas, mocambos, palafitas, conjuntos habitacionais sem a menor condição de habitabilidade e amplamente devassados, com suas entranhas de miséria expostas, estão os excluídos, os marginalizados, dissociados e distanciados do processo de conhecimento.
É preciso que se acentue que Bezerra da Silva não é carioca nem fluminense, mas pernambucano.
Como nordestino, exprime sem ódio e sem rancor toda a discriminação que acompanha seus conterrâneos no mundo dos barracos.
Bem diferente de seus antecessores mais próximos, Moreira da Silva e Dicró, nossos “três malandros”. Mas cada um tem um gênero gírio diferenciado.
Moreira da Silva, carioca, foi um pioneiro e é responsável pelo rompimento das convenções e restrições contra a gíria. Admitamos que deu status urbano à gíria, com seu jeitão de “falso malandro”. O “samba de breque” foi o seu caminho para ir estabelecendo uma comunicação fácil e direta entre o mundo malandro e o mundo asfático.
Dicró, fluminense, é contemporâneo de Bezerra da Silva, se debruçou sobre a gíria das comunidades negras, entendendo e explicando a exclusão social que marca essas populações pobres.
Nenhum dos três fez ou faz política, mas tiveram e têm um discurso eloquente, verbalizado na riqueza do idioma gírio. Fizeram-se entender por milhões de brasileiros do asfalto e o principal resgataram a gíria do gueto e do padrão excludente atribuído pelas elites.

A música que dá título ao CD é de autoria de Elias Alves Junior, Wagner Chapell
E carrega a seguinte letra:

“Toda hora tem gíria no asfalto e no morro
porque ela é a cultura do povo

Fontes (gírias)

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