A invasão de termos estrangeiros

A invasão de termos estrangeiros tem sido tão intensa que ninguém estranharia se eu fizesse aqui o seguinte relato do meu cotidiano: 


Fui ao freezer, abri uma coca diet; e saí cantarolando um jingle, enquanto ligava meu disc player para ouvir uma música new age. 

Precisava de um relax.
Meu check up indicava stress. Dei um time e fui ler um bestseller no living do meu flat. Desci ao playground; depois fui fazer o meu cooper. Na rua, vi novos outdoors e revi os velhos amigos do footing. Um deles comunicou-me a aquisição de uma nova maison, com quatro suites e até convidou-me para o open house. Marcamos, inclusive, um happy hour. Tomaríamos um drink, um scotch, de preferência on the rocks. O barman, muito chic, parecia um lord inglês. Perguntou-me se eu conhecia o novo point society da cidade: o TimeSquare, ali no Gilberto Salomão, que fica perto do Gaf, o La Basque e o Baby Beef, com serviço a la carte e self service. Preferi ir ao Mc Donald’s, para um lunch: um hamburger com milk shake. Dali, fui ao shopping center, onde vi lojas bem brasileiras, a começar pelas Lojas Americanas, seguidas por Cat Shoes, Company, Le Postiche, Lady, Lord, Le Mask, M. Officer, Truc’s, Dimpus, Bob’s, Ellus, Arby’s, Levi’s, Masson, Mainline, Buckman, Smuggler, Brummel, La Lente, Body for Sure, Mister Cat, Hugo Boss, Zoomp, Sport Center, Free Corner e Brooksfield. Sem muito money, comprei pouco: uma sweater para mim e um berloque para a minha esposa. Voltei para casa ou, aliás, para o flat, pensando no day after, o que fazer? Dei boa noite ao meu chofer, que, com muito fair play, respondeu-me: Good night.

 

 

A gestação “portinglês”

Uma manchete gritava que ‘Negócios com delivery crescem em SP’. Assim, sem destaque gráfico para a palavra delivery, como se ela fosse freguesa dos dicionários. (Já há delivery order, carta que autoriza a entrega de mercadorias.)

Delivery surge sem destaque em faixas de pizzarias ou casas de comida chinesa, e ninguém se surpreende, porque o país está aberto às novidades mais edificantes. Nada de mal em recebê-las, e os espíritos resignados ante a realidade global devem até considerar delivery mais bonito e mais significativo do que ‘entrega’ ou ‘entrega-se em casa’.
 
 
Uma manchete gritava que ‘Negócios com delivery crescem em SP’. Assim, sem destaque gráfico para a palavra delivery, como se ela fosse freguesa dos dicionários. (Já há delivery order, carta que autoriza a entrega de mercadorias.)

Delivery surge sem destaque em faixas de pizzarias ou casas de comida chinesa, e ninguém se surpreende, porque o país está aberto às novidades mais edificantes. Nada de mal em recebê-las, e os espíritos resignados ante a realidade global devem até considerar delivery mais bonito e mais significativo do que ‘entrega’ ou ‘entrega-se em casa’.

Estrangeirismo

O termo ‘estrangeirismo’ significa palavra ou expressão de outras línguas, empregada na língua portuguesa.
As palavras de origem estrangeira geralmente passam por um processo de aportuguesamento fonológico e gráfico. Decorrente desse processo deixamos de perceber quando estamos fazendo uso de estrangeirismos.
 
O projeto de lei n.º 1676/99, de autoria do deputado Aldo Rebelo, é um dos poucos assuntos relacionados à língua que tem espaço na mídia brasileira. Em época recente, o projeto tornou-se objeto de polêmica entre o seu autor e alguns lingüistas, entre eles Fiorin (2000) e Aubert (2001). Considerado por este último como preconceituoso, o referido documento objetiva defender, proteger e promover a língua portuguesa no Brasil.
O projeto de lei, em seu artigo 3.º, define os segmentos sociais que serão alvo da possível lei: (1) todos os brasileiros; (2) todos os estrangeiros que se encontram em nosso país há mais de um ano. Define também as situações em que a língua portuguesa deve ser usada:

Art. 3.º – É obrigatório o uso da língua portuguesa por brasileiros natos e naturalizados, e pelos estrangeiros residentes no País há mais de 1 (um) ano, nos seguintes domínios socioculturais:

I – no ensino e na aprendizagem;

II – no trabalho;

III – nas relações jurídicas;

IV – na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica oficial;

V – na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica em eventos públicos nacionais;

VI – nos meios de comunicação de massa;

VII – na produção e no consumo de bens, produtos e serviços;

VIII – na publicidade de bens, produtos e serviços.

   
Diante dos fatos apresentados acima, podemos afirmar que, para justificar o projeto de lei 1676/99, pelo menos um dos argumentos usados pelo deputado Aldo Rebelo não tem fundamentação científica. Ao afirmar que os estrangeirismos estão descaracterizando a língua portuguesa falada no Brasil, o deputado se esquece de que os empréstimos fazem parte da dinâmica da língua, ao mesmo tempo em que refletem a situação de determinado momento histórico do povo que a usa.
 
 
Assim, torna-se muito difícil, a curto e médio prazo, evitar o empréstimo lingüístico, já que a situação político-econômica mundial faz com que a língua inglesa tenha um maior prestígio em relação às outras línguas. Acrescente-se, ainda, que o empréstimo, de uma certa maneira, é um dos meios de renovação lexical e, em conseqüência, pode ser considerado, lingüisticamente, um recurso pertencente ao fenômeno do enriquecimento de uma língua.